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sábado, 1 de agosto de 2026

Barnabé, o Macaco Psico-Surrealista


Ideias para Salvar o Planeta 


O Barnabé analisa que, tendo ele também vários defeitos e não se imiscuindo de absolutamente nada, não custava às pessoas falarem baixo. Os gritos estimulam a produção de cortisol, a hormona do stress, que dá cabo da saúde e da esperança média de vida. Desta feita, o Macaco recomenda evitar esta forma de poluição sonora, já que implica diretamente a saúde mental e a calma alheias. 


Experimentem gritar para dentro, implodir! Talvez aprendam qualquer coisa, por ex. a deixarem de ser desagradáveis e a chilar!


São estas as conclusões de diversos estudos e observações pseudocientíficas do Macaco, as quais eram capazes de ajudar à evolução da humanidade e talvez salvassem o planeta terra. 


Abraços e saudações macacoídes 🌈

domingo, 14 de junho de 2026

Barnabé, O Macaco Psico-Surrealista

Ideias para Salvar o Planeta 

O Barnabé analisa que, tendo ele também vários defeitos e não se imiscuindo de absolutamente nada, não custava às pessoas não deitarem o seu lixo imundo por aí (inclui beatas de cigarros, toxicidade ideológica ou ultrapassagens perigosas em rotundas). O ar é de tod@s! E o planeta também! Existem na Civilização sítios próprios para depositar e transformar resíduos. 


Desta feita, recomenda a toda a gente que experimente passar a gerir o seu próprio lixo material e mental, evitando que outrem leve com isso de forma indiscriminada. 


São estas as conclusões de diversos estudos e observações pseudocientíficas do Macaco, as quais eram capazes de ajudar à evolução da humanidade e talvez salvassem o planeta terra. 


Abraços e saudações macacoídes 🌈

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Barnabé, O Macaco Psico-Surrealista

 


Ideias para Salvar o Planeta 


O Barnabé analisa que, tendo ele também vários defeitos e não se imiscuindo de absolutamente nada, a maioria das pessoas é deveras insuportável. Desta feita, recomenda a toda a gente que passe pelo menos uma grande temporada da Vida sozinha: para ver claramente o quão insuportavel é (sem ninguém lá para quem descarregar e projectar merda). São conclusões de diversos estudos e observações pseudocientíficas do Macaco, que isto era capaz de ajudar ao avanço relacional da humanidade e talvez salvasse o planeta terra. 


Abraços e saudações macacoídes 🌈

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Episódios de Intro(a)versão: Um Estranho Mete Conversa Comigo

Estou num café. Acabo de beber o meu chá. Vou até ao balcão pagar a conta. O gajo do café recebe o dinheiro, olha para o livro que tenho comigo (“Vagabundos do Dharma” de Jack Kerouac) e pergunta se pode ver. Digo que sim, um pouco atrapalhada, e acrescento que não é grande coisa:

(É preciso notar que ao longo de todo este árduo diálogo, árduo para mim, eu estava super constrangida).

-Chamou-me a atenção porque tem “dharma” no título. Mas dharma tem a ver com uma filosofia de vida e o budismo, é um contrassenso "vagabundos do dharma”...

Reviro os olhos mentalmente (por que raio sou assim?!), mas o rapaz até parece ser porreiro, por isso explico qualquer coisa acerca da altura em que foi escrito, etc., etc. E ele:

-Pois, agora comecei a ler umas coisas, mas não são romances...

-Bom, isto não é bem um romance (pelo menos no sentido que me pareceu que ele estava a dar à palavra). Não conheces o autor?

-Não. Ando a ler cenas de Filosofia. Descobri o Comte.

-Sartre e Foucault são muito bons...

Ele acena com a cabeça e atira:

-Acabei agora de ler “O Anticristo”.

(Não consigo evitar de pensar que li isso aos 15 anos... Reviro outra vez os olhos mentalmente... Por que raio sou assim?!)

-O Nietzsche é o maior! - respondo-lhe a sorrir.

Lentamente, pego no livro que estava em cima do balcão e começo a mover-me no sentido de me pirar dali para fora da forma mais natural possível. É MUITO DOLOROSO PARA MIM FALAR COM ESTRANHOS (eu vou àquele café quase todos os dias, mas ainda assim para mim, o gajo é um estranho!).

Ele, em plena sincronia, move-se também e sai do balcão cá para fora. Diz mais qualquer coisa, eu começo a ficar desesperada, mas sorrio com toda a naturalidade possível. Até que ele começa a sentir-se mal e diz:

-Oh desculpa, estou a aborrecer-te!

(Eu penso para mim: até pareces ser fixe e eu gosto de falar sobre estas coisas...) Mas o que me sai da boca é o seguinte (não sei por que razão):

-Não faz mal - digo-o a sorrir.

(...devo ter ficado a parecer um pouco psicopata...)

(E não era mesmo isto que eu queria dizer...)

Por esta altura, o meu sorriso já deve começar a parecer-se com o do Joker. Tendo noção disso, fico ainda mais nervosa. Entro em pânico e atiro um:

-Bom fim de semana! (Uma vez que era sábado).

Continuo a sorrir estupidamente enquanto saio porta fora. Parece que os músculos da face congelaram.

Vou o mais rápido que posso para não dar nenhuma hipótese de o diálogo prosseguir (na minha cabeça parecia mesmo que estava em fuga). Entro no carro e ponho-me a andar. Passei a viagem toda a rir à gargalhada e só me vinha à cabeça a palavra: awkward awkward awkward awkward ...

É assim a vida da malta introvertida! Sempre dá para rir (sozinha).



24-08-2020

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

CARICATURAS - A Tipa que Manda mas Nunca Assume

Acredita piamente que é boa pessoa e se for preciso sabe como fazer a caridade. Se puder evitar também evita, até porque tem muitos afazeres e coisas por decidir que irão eventualmente mudar o curso da história do mundo. 

Não! Esperem... da cidade. Ai! Também não... será da sua pequena aldeia? Talvez, só mesmo, no fundo... lá de casa. Ops não! Afinal é só do umbigo! 

Adiante! O importante é que é boa pessoa e tem um super sentido de missão. O qual bebeu, como um bebé suga da teta de sua mãe, de alguma figura paterna a que depois renunciou, sabem... por lhe fazer sombra. Um dia acordou e pensou: “agora que já sou grande, devo autonomizar-me a ser boa sozinha. Já não preciso de ninguém para nada!”. 

Só que isso depois trouxe umas consequências. Então, reflectiu melhor e encontrou um/a testa de ferro para aguentar as culpas das suas más acções. Assim só conseguem imputar-lhe as boas. É uma excelente estratégia e poupa-a a inúmeros conflitos internos desagradáveis.

Se alguém lhe pergunta sobre uma questão ou decisão, atira: “não estava cá” e quase assobia para o lado. Ou então olha o/a testa de ferro nos olhos e diz: “já fizemos isto não já!!!”. O/A testa de ferro e ela acenam com a cabeça ao mesmo tempo, em uníssono e perfeita sintonia. Mentem, mas como o fazem em cooperação fica bonito, quase parece solidariedade.

Não tenho nada contra nem a favor desta personagem. Acho-lhe imensa piada! Há realmente quem goste de mandar sem se responsabilizar e quem assuma as culpas, na desportiva, sem mandar. Aprendemos assim que a felicidade e o sucesso podem assumir vários contornos e tonalidades. É o que é!


20-09-2020

CARICATURAS - O Pintas Zen Que Gosta de Estar no Trabalho

Faz madeixas brancas no cabelo e apara a barba como dita a moda da ocasião, para ser estiloso.

Pequenito e de pernas arqueadas, que acentua com skinny jeans e botins a imitar cabedal, cumprimenta toda a gente como se estivesse a espalhar charme e felicidade, mas na verdade é oco. Deve ter visto um coach grisalho no Youtube a ensinar gestão e autoconfiança e introjectou aquilo a sangue frio.

Ele não sabe, mas eu sei, que faz tudo por tudo para que não se descubra (incluindo o próprio) que é um impostor.

Acha que os índices de bem estar de uma organização sobem se sorrir e perguntar todos os dias como estão a correr as coisas.

Por falar em correr, é visto a correr pela cidade, sua e esforça-se como um campeão. Se tivesse esta tesão para perceber o funcionamento dos projectos que “coordena”, ler leis e documentos essenciais que implicam directamente o seu trabalho e quisesse mesmo saber o que é o bem estar, talvez um dia trabalhasse realmente.

Fala em chavões, dá a ideia de ter aprendido umas palavras essenciais há uns anos atrás com alguém mais velho, talvez um mentor, como por exemplo: sustentável, colaboração, plano de cooperação, estreita parceria, desenvolvimento conjunto de acções. Só que ele fala e observas que não deve nem saber como consultar o dicionário para apreender os significados. Tem a argúcia intelectual de uma ervilha.

Nunca se inibe de falar, aceita todos os convites e quando não há convite partilha igualmente as suas epifanias com outrem. Para ele, isto é a solidariedade!

Acho incrível aquela autoconfiança toda, mesmo quando diz disparates. Mas assim descobrimos que quando se faz tudo com confiança, passa-se por entre os pingos da chuva. Aprendi muito com ele, mas confesso que não tenho lata para seguir o modelo.

Fala de tudo como se soubesse, se alguém o interromper para corrigir sorri e finge preocupar-se, mas num momento seguinte pode repetir o mesmo disparate, só que desta vez com um ar que é um misto de virgem colegial com barão solene. Não é fácil explicar-vos caracteres que se traem a si mesmos em cada gesto. Mas tentei.

Não tenho nada contra nem a favor do personagem. Mas desconfio que nunca trabalhou um único dia, ganha o seu e ninguém o chateia. Tiro-lhe o chapéu!


19-09-2020

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Enquanto Trabalhava

Dei comigo a pensar naquilo que estava a fazer (física e mecanicamente) naquele preciso instante, ia tombando com essa ideia do que fazia realmente. Recordei todos as inquietações, propósitos e sonhos de outrora, tudo quanto me tinha movido, aquilo que me tinha possibilitado uma continuação vivida entre o fim da adolescência e a idade adulta. Na verdade nunca me esqueci realmente, apenas procuro afundar dia a dia essas certezas todas de outrora, pois a realidade de hoje é, de facto, o maior teste à minha capacidade de aguentar o tédio, de sempre…

Por vezes, quando abro um livro intelectualmente muito estimulante, sinto uma certa revolta, por que esse simples abrir do livro deixou de ser parte integrante do meu viver diário, já não pode ser o principal. Agora o principal é produzir um determinado número num qualquer trabalho idiota de uma qualquer entidade desprovida de tesão. E este dia-a-dia é cancro, faz cancro, sinto-me a apodrecer por dentro da minha mente. A sociedade está a acabar com o meu intelecto, a minha libido, o meu amor pelas humanidades, artes e ciências. Pois agora apenas me cabe contar, seleccionar, informar, empilhar papéis, construir dossiers e nunca, mas nunca pensar, evitar ao máximo pensar, apenas executar e produzir números desconexos que nada explicitam da realidade. E mais uma vez, surge a mesma pergunta de sempre: o que é a realidade? O raio da realidade!

Na infância não podemos ser nós próprios devido às imposições e interditos expressos pelos nossos pais e avós. Durante a adolescência não podemos ser nós próprios devido aos limites impostos pela comunidade e sociedade como um todo. Por fim, chegamos esperançosos à idade adulta... Mas também não vamos poder ser nós próprios... 

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Zero ou O

Numa ocasião, quando sonhava dormindo, lembro-me de ver e falar com pessoas (algumas conhecidas e muitas inventadas) que não me faziam sentir nada de bom, como se houvesse no espaço que fica entre uma interacção e outra, uma estranheza essencial/básica. 
Fiquei então a fazer uma qualquer tarefa, da qual não me recordo e, estando sozinha, senti um chamamento, qualquer coisa que me impelia a ir. E fui. Corri para «lá». Reconheci num tecto branco e diagonal uma mancha vermelha, levei imediatamente a minha mão para ela, toquei, deixei-me estar com a mão ali. Surgiu-me então uma sequência numérica: -1 +1 -1 +1 -1 +1 -1 +1... (até ao infinito). 
Acordei, pensei, estudei, procurei. A recta... o ponto zero... a conta que feita numa vez ou até ao infinito dá sempre zero... o O do Bion... a circularidade... o começo, o desenvolvimento e o fim... o início, de novo... a possibilidade... o nada... a criação... a verdade última...

sábado, 25 de dezembro de 2010

Às Memórias Da Minha Infância

A minha avó prostrava-se e rastejava, encolhida, pelo chão. De mãos juntas pedia perdão a todos. Eu, pequena, olhava-a e não entendia a razão: achava-a santa, sem coisas más, sem maldade. Ela, desesperada, continuava expiando os seus queridos pecados. Eu ficava triste, como ela, e só sabia sentir que nada podia fazer, que nenhuma alegria lhe podia conceder. Não entendo por que razão ninguém me arrancou dali, levando-me embora. Estas suas ausências passaram a fazer parte da minha presença perto dela, que era diária. Durante essas ausências eu ficava vazia do amor dela e morria um bocadinho.
O meu avô chegava a casa do trabalho, para o almoço, e atirava com o prato, descontente com a comida que ela tinha preparado com carinho. A comida era deliciosa, mas a relação deles era odiosa. Nesses momentos de ira massiva ninguém dizia nada, pairava um silêncio parecido com o dos cemitérios (quando não há por lá funerais: pois é! por estranho que pareça não há nada mais barulhento que um enterro; choram aos gritos, revêem-se familiares desconhecidos, come-se bastante e contam-se anedotas). Depois ele voltava para o trabalho e as coisas normalizavam, a não ser que se desse mais uma ausência acamada da minha avó.
Lembro-me de outras coisas, mas não consigo articulá-las em forma de escrita, de qualquer forma já fiz a catarse, retiro-me agora.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Ser «Lá»

Aqui, onde me sento/sinto e estou, vou para lá do que existe. Penso o que não existe e existo assim. «Lá» é uma expressão do sítio de onde vim, em que habitei outrora. «Lá» chama-se, na verdade, princípio (alpha) e fim (beta). Possui a essência de lugar: quente, protegido, amistoso; como estar dentro de uma lareira sem o queimar do fogo. Consigo transitar de «aqui» para «lá» sempre que preciso e tenho vontade. Então, posso ficar serena e enraizada na sensação de não ser/ter nada, fluir ao ritmo do ar e confundir-me com a água da Terra toda. Ao mesmo tempo, eu sou só sentir: vejo os sons, toco nas cores, cheiro a sensação de ter as mãos vazias, ouço os olhares nas ruas desconstruídas, e saboreio todos os cinco sentidos como se fossem um só - a ideia de uno e indivisível... Sou toda a inexistência, mas fundo-me nos outros, que existem, e eles estão em mim, sempre... Por isso, não os tolero e volto a ser mar sem fim, ar leve, sem respirar quase; elevo-me até ao fim. E já me tenho só como sonho, preso no sono. Não quero acordar, não posso acordar... A Realidade do mundo e das coisas faz-me feia e tira-me o sentido. Obriga-me a Ser, esse pesadelo!

segunda-feira, 24 de maio de 2010

yom kippur

Penso. Reflicto acerca de uma frase que uma pessoa, há muito tempo me repetia, uma pessoa que deixou de ser importante. No entanto, a frase parece ter ganho importância: "Aquilo que eu não sei não me pode magoar". Sempre acreditei que a verdade das coisas, dos acontecimentos, das pessoas deveria sobrepor-se à mentira e à omissão. Como se pudéssemos assim dar qualquer coisa, boa ou má, ao outro. Mas dar e não retirar.
Hoje acordei, quase sem ter tido a possibilidade de dormir, de luto. Vesti-me de preto, mas mal saí de casa, comi mas não fiquei com energia para nada. Rememorei. Talvez a verdade não tenha espaço de existência, tal como a liberdade ou a justiça que são apenas abstracções, não tendo, na realidade, grandes implicações práticas. Quanto menos souber do outro, esse inferno sartriano, melhor será para manter, pelo menos, a ilusão de que não sou magoada e destruída pelas palavras e silêncios desse ser sempre desconhecido.
Percebo agora que as minhas verdades todas não me conduziram a parte alguma, continuo a existir no mesmo vácuo de sempre. O sentimento de retorno a isto só tem um nome: sentimento de morte. E nem sei o que isso pode querer dizer, só o sei nomear. Arrependo-me de ter sido verdadeira vezes demais. Ao menos a mentira existe efectivamente, porque é criada pelo seu autor.

domingo, 8 de novembro de 2009

Impressão Dum Sonho

A luz era confortável, não havia claridade nem penumbra. A cor da decoração irradiava por todo o lado. Eram umas três camas altas (uma com cortinados amarrados) de madeira. Enchiam todo o espaço. Havia livros em cima da cama decorada com cortinados, imensos livros. De todo o cenário emanava um conforto inexplicável.
Olhaste para mim enquanto fumavas um cachimbo muito ovalado, de madeira trabalhada com uns quaisquer motivos floridos. Estavas deitado numa das camas, de lado. Eu movi-me para perto de ti. Creio que estava em collants e vestia uma blusa fina e macia. Referiste a sorrir que estava muito magra, e agarraste-me para sentir os ossos da bacia. Agarraste com precisão, como se pudesses fazê-lo por eu ser tua. Como há muitos anos atrás, quando eu o era... O toque foi exactamente igual, no sonho, a como costumava ser na realidade. Nunca mais ninguém me despertou essa sensação característica do milissegundo após ser tocada por ti. Mas também não conseguiria saber adjectivá-la ou a razão pela qual era assim.

Depois dirigi-me a um baú pequeno muito trabalhado, creio que tinha uns dourados, e lembro-me de reparar na fechadura... Entretanto, já estava com três chaves em frente ao baú, não sabia qual lhe servia. Tentei a primeira e não abriu. Acordei e senti qualquer coisa que se parece com saudades, mas não o é.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Atrasei-me prà vida!; como quando me atrasei para a morte do meu avô... Por teimosia. Dizemos tantas vezes não nos nossos diálogos quotidianos que a negação acaba por tornar-se num modo de existir (contra o mundo, contra aquilo que é a nossa essência). Não, isto não é uma dissertação acerca da essência do homem ou do sentido da existência humana. Isto é o derradeiro grito de quem nunca se deixou berrar, por teimosia, por pseudo-controlo.
Vamos à consulta de psicoterapia psicanalítica falar mal dos nossos pais e saímos de lá com a culpa acrescida. Fazemos exames médicos pensando sempre que não vamos ter nada, só para confirmar que tudo vai bem. Marcamos consultas de especialidade na esperança de estarmos a ser hipocondríacos. Perdemos pessoas, perdemos desejos, apagam-se luzes todos os dias dentro nós. Deixamos permanentemente de acreditar na possibilidade de um dia podermos vir a acreditar em alguém.
Mas ainda tenho tempo, pensamos. Ainda não me esgotei. Então cai-nos a realidade em cima, com suspeições acerca da possibilidade de o corpo, este corpo arrastado ao longo de cerca de duas décadas, estar a destruir-se a si próprio. Sentimo-nos cansados de tudo, respirar é um tormento, então vamos dormir. E lá estão as insónias a espreitar. Levantamo-nos, não conseguimos ler, escrevemos mal e porcamente, pensar é esgotante e, ao mesmo tempo, não somos capazes de parar o pensamento. Depois de umas horas deprimentes lá nos deitamos outra vez, temos pesadelos, acordamos com a boca amarga e sabemos como vai ser o dia. Desejamos então que algo aconteça: uma bomba, uma catástrofe natural, uma estalada, qualquer coisa serve... O tédio é insuportável, o vazio vence. E um dia arrependemo-nos de ter desejado maldades que podem, de facto, acontecer (a nós próprios).
E chego à conclusão que cagar é o único prazer que resta.