quarta-feira, 28 de outubro de 2009

"O Dom"

"Infelizmente, já me custa juntar todos os bocados do passado; começo a esquecer relações e ligações entre objectos que ainda prosperam na minha memória, objectos que assim condeno à extinção. Se é assim, que arremedo insultuoso é afirmar com suficiência que

assim uma impressão anterior continua a viver
no interior do gelo da harmonia."

"O Dom"

"É estranho como uma recordação se transforma numa figura de cera, como o querubim se torna suspeitosamente mais bonito à medida que o seu quadro escurece com a idade - estranhas, estranhas são as desventuras da memória."

"O Dom"

"(...) estas são as minhas recordações mais precoces, as mais próximas da fonte original. A sonda do meu pensamento volta-se muitas vezes para essa fonte original, para esse nada em sentido contrário. Assim, o estado nebuloso do recém-nascido parece-me sempre uma lenta convalescença após uma terrível doença, e, quando forço a memória até ao limite para gozar dessa escuridão e utilizar as suas lições para me preparar para a escuridão que há-de vir, o afastar-me da não existência primeira transforma-se numa via de acesso a essa não existência primeira; mas, ao virar a minha vida ao contrário, de modo que o nascimento passa a ser a morte, não consigo ver, no limite dessa morte em sentido contrário, nada que corresponda ao terror sem limites de que se diz que mesmo um velho centenário conhece quando se defronta com o fim certo; nada, salvo talvez as supramencionadas sombras que, enguendo-se lá do fundo quando a vela sai do quarto (com a sombra da maçaneta de cobre do pé esquerdo da cama a passar velozmente como uma cabeça negra que incha à medida que se desloca), ganham os seus lugares habituais por cima da minha caminha de criança (...).

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Consagro a Inutilidade de Um Título

Retorna a imagem do branco, como ponte para a reparação do Eu, um Eu que pode recriar-se continuamente. Não é um branco associado à dimensão do vazio propriamente dito. Mas, antes, associado à possibilidade múltipla de criar o novo, a partir dos fragmentos que foram, anteriormente, evacuados, não para o fora, como mundo externo, mas para um exterior imaginado, e, por isso, um exterior que não chegou a separar-se da vivência interna sofrida. Sofrida, porque, igualmente, tolerada em termos de uma procura de adaptação. Refere-se a noção de imagem, pois o quadro branco é, em potência, um desenho. Comporta uma evocação à (re)criação do velho não transformado, não entendido numa dimensão relacional. A procura pelo outro, pela ligação a esse outro, não é mais do que uma tentativa de ultrapassar a intolerância à frustração. Nessa tentativa, não existe uma procura ávida pelo motivo da necessidade e/ou dependência desse outro, mas antes uma possibilidade de encontro de si próprio, e desse sentido projectado livre e autonomamente no mundo da realidade externa.
O externo não é mais que a consagração, comummente aceite, de uma pluralidade de pequenos pedaços de mundos internos. Aquele que não se adequa a este processo comummente estruturado, começa por erigir um muro, paralelamente dá-se a construção desse mesmo muro por outros, esses seres sociais que consagraram o mundo externo.
O que é a realidade? A resposta encontra-se no parágrafo acima.
A impossibilidade de uma crença passiva no nada, torna-se assim compreensível, uma vez que é humanamente inconsistente pensar-se que se poderia não criar, pois o nada supõe essa mesma anulação criativa.

"Manual de Gramática Russa"

"O carvalho é uma árvore. A rosa é uma flor. O cervo é um animal. O pardal é uma ave. A Rússia é a nossa pátria. A morte é inevitável."

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

"Poética"

"(...) um poema merece este título apenas na medida em que excita, provocando a elevação da alma. O valor do poema é proporcional a esta excitação que enleva. Mas todas as excitações, devido a um condicionamento psíquico, são efémeras. Esse grau de excitação que permite que um poema possa sequer ser assim chamado não pode sustentar-se continuamente ao longo de uma composição de tamanho muito longo. No máximo, ao fim de uma meia hora, esmorece - declina -, seguindo-se-lhe a reacção inversa - e então o poema, efectivamente, e de facto, deixa de o ser."

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

"Die Leiden des Jungen Werthers"

"Ah! Carlota! Isto é um sentimento único, e, contudo, nada se assemelha mais a um sonho do que dizer-se: «É esta a derradeira manhã!» A derradeira! Carlota, e custa-me compreender o sentido destas palavras: a derradeira; hoje vejo-me ainda de pé, cheio de força! E amanhã, hirto, imóvel, estirado sob a terra fria! Morrer! O que é morrer? Nós sonhamos quando falamos na morte. Tenho visto morrer muita gente; mas o homem é tão ignorante que, apesar do que vê, não tem uma ideia nítida do começo e do fim da sua existência. Por enquanto sou ainda meu... não! teu... teu, minha bem amada! E, um momento depois, separados, apartados talvez para sempre! Não, Carlota, não! Como hei-de eu desaparecer! Que quer dizer isto? São ainda outras palavras, um som oco, que o meu coração não compreende nem ouve! Morto, Carlota! Sepultado na terra fria, numa cova tão estreita! Tão negra!"

"Die Leiden des Jungen Werthers"

"Sabe Deus quantas vezes tenho adormecido com o desejo, até mesmo com a esperança, de não mais acordar! Mas no dia seguinte, abro os olhos, torno a ver o sol e sinto-me miserável!"