"Adeus, meu livro! Tal como os olhos mortais, os imaginados devem cerrar-se um dia. Onegin, de joelhos, levantar-se-á, mas o seu criador afasta-se para longe. E contudo o ouvido não pode separar-se aqui mesmo da música e deixar que o conto se desvaneça; os acordes do próprio destino continuam a vibrar; e para o homem sábio não existe obstrução onde eu escrevi Fim: as sombras do meu mundo estendem-se para lá do horizonte da página, azul como as brumas de amanhã, e nem isto termina a frase."
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sábado, 6 de março de 2010
"O Dom"
"Será esta noite que vai acontecer? Acontecerá realmente agora? O peso e a ameaça da felicidade. Quando caminho contigo como agora, tão lentamente, e te seguro pelo ombro, tudo vacila ligeiramente, e a minha cabeça zumbe, e apetece-me arrastar os pés (...)."
"O Dom"
"- Tudo isso é maravilhoso - disse Zina. - Agrada-me tremendamente. Penso que vais ser um escritor como nunca houve e que a Rússia te vai cair aos pés, quando voltar a si tarde demais... Mas tu amas-me?
- O que estou a dizer é uma espécie de declaração de amor - respondeu Fedor.
- «Uma espécie de» não chega. Sabes, acontecer-me-á sem dúvida às vezes ser terrivelmente infeliz contigo. Mas no conjunto isso não interessa, estou pronta para enfrentar tudo."
- O que estou a dizer é uma espécie de declaração de amor - respondeu Fedor.
- «Uma espécie de» não chega. Sabes, acontecer-me-á sem dúvida às vezes ser terrivelmente infeliz contigo. Mas no conjunto isso não interessa, estou pronta para enfrentar tudo."
"O Dom"
"O verdadeiro escritor deve ignorar todos os leitores menos um, o do futuro, que por sua vez é meramente o autor reflectido no tempo."
"O Dom"
"Quando era pequeno, antes de dormir costumava rezar uma longa e obscura oração que a minha falecida mãe, mulher piedosa e muito infeliz, me ensinara (ela, evidentemente, teria dito que estas duas coisas são incompatíveis, mas apesar de tudo é verdade que a felicidade não toma o véu). Lembrei-me dessa oração e continuei a dizê-la durante anos, quase até à adolescência, mas assim que compreendi tudo esqueci-a imediatamente, como se tivesse quebrado um amuleto sem concerto possível. Parece-me que o mesmo poderia acontecer aos meus poemas, que se tentar racionalizá-los perderei imediatamente a capacidade de os escrever. (...) O encanto da Musa reside na pobreza dela própria."
sexta-feira, 5 de março de 2010
"O Dom"
"Observando de perto, pouco importa quão de perto, os acontecimentos da natureza, devemos, no próprio processo da observação, ter o cuidado de não deixar que a razão - esse dragomano loquaz que vai sempre à nossa frente - nos sugira explicações que começam então imperceptivelmente a influenciar o próprio curso da observação e a distorcê-lo: assim cai a sombra do instrumento sobre a verdade."
quinta-feira, 4 de março de 2010
"O Dom"
"Como é difícil virar os pensamentos: são como troncos. Sinto-me demasiado doente para morrer."
sábado, 6 de fevereiro de 2010
"O Dom"
"Sei que não há nada a esperar deste lado, pois não há uma única conversa em que ela não diga que, embora eu seja um homem de bem, sou apesar de tudo demasiado desajeitado e quase repelente. Compreendo que não deveria tentar ganhar seja o que for, pois de qualquer modo estou mais ligado a Nikolai Gavrilovitch do que a ela. Mas ao mesmo tempo, sou incapaz de a deixar em paz."
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
"O Dom"
"Os anos 50 estão agora no seu apogeu. Pode-se fumar na rua. Pode-se usar barba. (...) Uma nova heresia apareceu: o niilismo. «Uma doutrina escandalosa e imoral que rejeita tudo que não possa apalpar-se», diz Dahl com um arrepio, na sua definição dessa estranha palavra (em que «niil», nada, corresponde de qualquer modo a «material»)."
sábado, 23 de janeiro de 2010
"O Dom"
"(...) Fedor lembrava-se de o seu pai dizer que em cada homem existe o sentimento inato de que a pena de morte tem qualquer coisa de insuperavelmente anormal, algo como a inquietante inversão dos gestos ao espelho que nos transforma todos em canhotos (...)."
"O Dom"
"Nos escritos doutro crítico radical, Zaitsev, era cómico encontrar, quarenta anos antes de Freud, a teoria de que «todos esses sentimentos estéticos e outras ilusões "que nos elevam" não passam de modificações do instinto sexual...» (...)."
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
"O Dom"
"- És capaz de me dizer porque é que as mariposas voam para a luz? Não há ninguém que saiba.
- E tu sabes?
- Parece-me sempre que, se me concentrar com bastante força, preciso só dum minuto para adivinhar. O meu pai dizia que se assemelhava sobretudo a uma perda de equilíbrio, como quando se aprende a andar de bicicleta e somos atraídos por uma cova. Olha para ela a andar em círculos! Mas há qualquer coisa mais profunda aqui, daqui a um minuto já sei."
- E tu sabes?
- Parece-me sempre que, se me concentrar com bastante força, preciso só dum minuto para adivinhar. O meu pai dizia que se assemelhava sobretudo a uma perda de equilíbrio, como quando se aprende a andar de bicicleta e somos atraídos por uma cova. Olha para ela a andar em círculos! Mas há qualquer coisa mais profunda aqui, daqui a um minuto já sei."
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
"O Dom"
"E como muitas vezes lhe acontecia, embora desta vez fosse mais profundo do que anteriormente, Fedor sentiu de repente - nesta escuridão transparente - a estranheza da vida, a estranheza da sua magia, como se um canto da vida tivesse sido voltado e ele tivesse entrevisto o debrum insólito."
"O Dom"
"Se, naqueles dias, tivesse de responder perante um tribunal situado para lá dos sentidos humanos (lembrem-se de como Goethe dizia, apontando com a bengala para o céu estrelado: «Ali está a minha consciência»!) dificilmente poderia decidir-se a dizer que a amava, pois havia muito que se apercebera de que era incapaz de dar toda a sua alma a alguém ou a alguma coisa: o seu capital de trabalho era-lhe demasiado necessário para os seus próprios assuntos pessoais, mas por outro lado, quando olhava para ela, ascendia imediatamente (para voltar a cair alguns momentos depois) a cumes de ternura, de paixão e de piedade que poucos amores atingem."
"O Dom"
"Oh jura-me que serás fiel ao sonho, e que só acreditarás na fantasia, e que nunca deixarás a tua alma enferrujar na prisão, nem que estenderás um braço para dizer: uma parede de pedra."
domingo, 13 de dezembro de 2009
"O Dom"
"Considerar-se medíocre era quase melhor do que acreditar que era um génio: Fedor duvidava da primeira hipótese e concedia a segunda, mas mais importante do que isso, lutava por não se render ao desespero infernal da página em branco. Porque havia coisas que queria exprimir tão natural e livremente como os pulmões querem expandir-se, resultava daí que deviam existir palavras convenientes para a respiração. Os lamentos dos poetas tantas vezes repetidos de que, infelizmente, não há palavras disponíveis, que as palavras são cadáveres lívidos, que as palavras são incapazes de exprimir os nossos sentimentos erraticamente indefinidos (e para o provar libertam uma torrente de hexâmetros trocaicos) pareciam-lhe tão desprovidos de sentido como a convicção assente do mais idoso habitante duma cabana de montanha de que essa montanha nunca foi escalada por ninguém nem nunca o será; numa bela manhã fria, aparece um inglês grande e esgalgado, e trepa alegremente até ao cume."
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
"O Dom"
"(...) e a sombra duma água desliza sobre os penhascos; por cima das nossas cabeças, uma paz, um silêncio, uma transparência perfeitas... e penso mais uma vez no que pensa o meu pai quando não está ocupado na caça de borboletas e está ali, imóvel... aparecendo por assim dizer na crista da minha memória, torturando-me, arrebatando-me - até doer, até à insanidade da ternura, do ciúme e do amor, atormentado-me a alma a sua inescrutável solidão."
domingo, 6 de dezembro de 2009
"O Dom"
"Hoje, às vezes parece-me, quem sabe, que ele partia nas suas viagens não tanto em busca de algo, mas para fugir de qualquer coisa, e que, ao regressar, verificava que essa coisa ainda estava com ele, dentro dele, implacável, inextinguível. Não sou capaz de encontrar um nome para esse segredo, sei apenas que essa era a origem dessa solidão particular - nem alegre nem taciturna, sem nenhuma relação, de facto, com a aparência externa das emoções humanas - a que nem a minha mãe nem todos os entomologistas do mundo tinham acesso."
"O Dom"
"Não podia suportar delongas, hesitações, o pestanejar de olhos de uma mentira, não podia suportar a hipocrisia ou as falas meladas, e tenho a certeza de que se me tivesse apanhado numa situação de cobardia física me teria amaldiçoado."
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