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terça-feira, 27 de outubro de 2009

Consagro a Inutilidade de Um Título

Retorna a imagem do branco, como ponte para a reparação do Eu, um Eu que pode recriar-se continuamente. Não é um branco associado à dimensão do vazio propriamente dito. Mas, antes, associado à possibilidade múltipla de criar o novo, a partir dos fragmentos que foram, anteriormente, evacuados, não para o fora, como mundo externo, mas para um exterior imaginado, e, por isso, um exterior que não chegou a separar-se da vivência interna sofrida. Sofrida, porque, igualmente, tolerada em termos de uma procura de adaptação. Refere-se a noção de imagem, pois o quadro branco é, em potência, um desenho. Comporta uma evocação à (re)criação do velho não transformado, não entendido numa dimensão relacional. A procura pelo outro, pela ligação a esse outro, não é mais do que uma tentativa de ultrapassar a intolerância à frustração. Nessa tentativa, não existe uma procura ávida pelo motivo da necessidade e/ou dependência desse outro, mas antes uma possibilidade de encontro de si próprio, e desse sentido projectado livre e autonomamente no mundo da realidade externa.
O externo não é mais que a consagração, comummente aceite, de uma pluralidade de pequenos pedaços de mundos internos. Aquele que não se adequa a este processo comummente estruturado, começa por erigir um muro, paralelamente dá-se a construção desse mesmo muro por outros, esses seres sociais que consagraram o mundo externo.
O que é a realidade? A resposta encontra-se no parágrafo acima.
A impossibilidade de uma crença passiva no nada, torna-se assim compreensível, uma vez que é humanamente inconsistente pensar-se que se poderia não criar, pois o nada supõe essa mesma anulação criativa.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Ao Meu Avô Morto

Sentavas-te numa cadeira perdida entre tantas outras, sentavas-te e observavas movimentos quotidianos, coisas estáticas, outras vidas... Mas creio que não era isso que vias. Entre o teu corpo débil e a janela que dá para o mundo, encontrava-se um espaço por onde costuma espreitar a morte, esse infalível e derradeiro embuste.
Ainda antes de quase cessarem as tuas palavras, sussurraste: "com estas coisas, uma pessoa até perde a personalidade." Ao olhares o mundo, a própria vida que deixarias em breve, questionaste o teu ser, genuinamente, sem máscaras de altivez ou arrogância, como era teu costume. Mas esse homem curvado e envelhecido já não eras tu, era apenas uma sombra esguia de quem conheci.

Lucidez

Já não choro... Estou no silêncio. Amanhã o mundo, as pessoas, continuarão a não fazer sentido, por isso chorar hoje, novamente, seria mais uma perda de sentido. Não sei o que me mantém lúcida, creio que possuo tudo o que é necessário para enlouquecer, para criar uma outra coisa que não a realidade. Talvez seja a esperança aberrante de um dia vir a saber de mim.
Olho para ti, dentro da minha mente. Tu és uma besta, tu és surdo do coração. Eu não sou ninguém, não por falta de identidade, mas por falta de honestidade. A minha vida é um conto de fadas, a minha vida é um conto, um conto de fadas. Creio que o desespero mais elevado não conduz sempre à alienação da mente, por vezes leva-nos à mentira. Eu não minto a ninguém, só a mim. Digo todos os dias ao meu outro eu, aquele que ninguém vê ou ouve, que um dia vamos ser qualquer coisa, não importa o quê. O importante é ser.
No espaço construído através das paredes que nos separam dos outros, tudo acontece. A realidade acontece quando estamos sós. A morte é real. Alguns morrem porque sim, outros porque tem de ser. Outros matam-se, ou porque têm medo de enlouquecer ou porque já enlouqueceram. São tudo verdades, o que aqui escrevo, tudo verdades... São tudo banalidades, vulgaridades, insignificâncias. Eu matei-me, uma vez, porque tinha medo de enlouquecer e se calhar enlouqueci mesmo. E foi a única vez em que me senti viva, quando tive de morrer, depois acordei e isso matou-me.