sábado, 25 de dezembro de 2010

Às Memórias Da Minha Infância

A minha avó prostrava-se e rastejava, encolhida, pelo chão. De mãos juntas pedia perdão a todos. Eu, pequena, olhava-a e não entendia a razão: achava-a santa, sem coisas más, sem maldade. Ela, desesperada, continuava expiando os seus queridos pecados. Eu ficava triste, como ela, e só sabia sentir que nada podia fazer, que nenhuma alegria lhe podia conceder. Não entendo por que razão ninguém me arrancou dali, levando-me embora. Estas suas ausências passaram a fazer parte da minha presença perto dela, que era diária. Durante essas ausências eu ficava vazia do amor dela e morria um bocadinho.
O meu avô chegava a casa do trabalho, para o almoço, e atirava com o prato, descontente com a comida que ela tinha preparado com carinho. A comida era deliciosa, mas a relação deles era odiosa. Nesses momentos de ira massiva ninguém dizia nada, pairava um silêncio parecido com o dos cemitérios (quando não há por lá funerais: pois é! por estranho que pareça não há nada mais barulhento que um enterro; choram aos gritos, revêem-se familiares desconhecidos, come-se bastante e contam-se anedotas). Depois ele voltava para o trabalho e as coisas normalizavam, a não ser que se desse mais uma ausência acamada da minha avó.
Lembro-me de outras coisas, mas não consigo articulá-las em forma de escrita, de qualquer forma já fiz a catarse, retiro-me agora.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

"O Prado De Béjin"

"Eu próprio vi muitas vezes essa Akulina. Maltrapilha, esquelética, com uma cara negra como carvão, com olhos turvos e os dentes sempre arreganhados, fica horas a fio no mesmo sítio, no meio do caminho, apertando muito as mãos ossudas ao peito e mudando lentamente de um pé para o outro, como um animal selvagem na jaula. Não compreende o que lhe dizem, apenas ri espasmodicamente de vez em quando."

terça-feira, 23 de novembro de 2010

"As Cidades Invisíveis"

"O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar."

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

"O Estrangeiro"

"Como se esta grande cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me, pela primeira vez, à terna indiferença do Mundo."

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Ser «Lá»

Aqui, onde me sento/sinto e estou, vou para lá do que existe. Penso o que não existe e existo assim. «Lá» é uma expressão do sítio de onde vim, em que habitei outrora. «Lá» chama-se, na verdade, princípio (alpha) e fim (beta). Possui a essência de lugar: quente, protegido, amistoso; como estar dentro de uma lareira sem o queimar do fogo. Consigo transitar de «aqui» para «lá» sempre que preciso e tenho vontade. Então, posso ficar serena e enraizada na sensação de não ser/ter nada, fluir ao ritmo do ar e confundir-me com a água da Terra toda. Ao mesmo tempo, eu sou só sentir: vejo os sons, toco nas cores, cheiro a sensação de ter as mãos vazias, ouço os olhares nas ruas desconstruídas, e saboreio todos os cinco sentidos como se fossem um só - a ideia de uno e indivisível... Sou toda a inexistência, mas fundo-me nos outros, que existem, e eles estão em mim, sempre... Por isso, não os tolero e volto a ser mar sem fim, ar leve, sem respirar quase; elevo-me até ao fim. E já me tenho só como sonho, preso no sono. Não quero acordar, não posso acordar... A Realidade do mundo e das coisas faz-me feia e tira-me o sentido. Obriga-me a Ser, esse pesadelo!

domingo, 14 de novembro de 2010

"As Cidades Invisíveis"

"Pensei: «Chega-se a um momento na vida em que da gente que se conheceu são mais os mortos que os vivos. E a mente recusa-se a aceitar outras fisionomias, outras expressões: em todos os rostos novos que encontra, grava as velhas feições, para cada uma arranja a máscara que melhor se lhe adapta»."

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

"As Cidades Invisíveis"

"Entrando no território de Eutrópia por capital, o viajante vê não uma cidade mas muitas, de igual grandeza e não diferentes umas das outras, espalhadas por um vasto e ondulado planalto. Eutrópia é não uma mas sim todas estas cidades juntas; uma só é habitada, as outras estão vazias; e isto faz-se por rotação. Vou contar como. No dia em que os habitantes de Eutrópia se sentem atacados pelo cansaço, e já ninguém suporta o seu ofício, os parentes, a casa e a rua, as dívidas, a gente que deve cumprimentar ou que o cumprimenta, então todos os cidadãos decidem transferir-se para a cidade vizinha que está ali à espera, vazia e como nova, onde cada um tomará outro ofício, outra mulher, verá outra paisagem ao abrir a janela, passará as noites com outros passatempos amizades maledicências. Assim a sua vida renova-se de mudança, entre cidades que devido à exposição ou ao declive ou aos cursos de água ou aos ventos se apresenta cada uma com qualquer diferença das outras. Sendo a sua sociedade ordenada sem grandes diferenças de riqueza ou de autoridade, as passagens de uma função para outra dão-se quase sem abalos; a variedade é assegurada pelas múltiplas incumbências, de tal modo que no espaço de uma vida raramente se regressa a um ofício que já tenha sido o seu.
Assim a cidade repete a sua vida sempre igual deslocando-se para baixo e para cima sobre o seu tabuleiro de xadrez vazio. Os habitantes voltam a representar as mesmas cenas com actores mudados; tornam a dizer as mesmas frases com entoações diversamente combinadas: abrem bocas alternadas em iguais bocejos. Sozinha entre todas as cidades do império, Eutrópia permanece idêntica a si própria. Mercúrio, deus dos volúveis, ao qual é consagrada a cidade, fez este ambíguo milagre."

sábado, 6 de novembro de 2010