"Sentia que a minha fúria era enorme, que devia estar assustador, e isso agradava-me. Com o braço esquerdo acotovelei-a com toda a força, em cheio na cara. Soltou um grito e largou-me o braço. Já ia persegui-lo, a ele, mas lembrei-me de que seria ridículo correr descalço atrás do amante da minha mulher, e eu não queria ser ridículo, queria ser pavoroso."
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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
"A Sonata De Kreutzer"
"A música faz-me esquecer de mim próprio, da minha verdadeira situação, transporta-me para outro espaço qualquer que não é o meu: a música parece que me faz sentir o que na verdade não sinto, que me faz compreender o que não compreendo, parece que, com a música, posso fazer o que na verdade não posso. (...)
A música transfere-me de imediato para o estado de espírito do músico quando a compôs. Fundo-me na alma dele e, juntamente com ele, transporto-me de um estado para o outro, mas não sei por que o faço."
"A Sonata De Kreutzer"
"A cidade é melhor para as pessoas infelizes. Na cidade, uma pessoa pode viver cem anos e não reparar que já morreu há muito e apodreceu. Não temos tempo de pensar em nós, estamos totalmente ocupados. Negócios, relações públicas, saúde, artes, saúde e educação das crianças, receber as visitas destes e daqueles, visitar outros, é preciso ver a actriz tal, ouvir o cantor ou a cantora tal. (...) e no entanto a vida é vazia, vazia."
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
"A Sonata De Kreutzer"
"Emancipa-se a mulher nos cursos superiores e nas instituições públicas, mas olha-se para ela como um instrumento de prazer. (...)
O liceu e os cursos superiores não podem mudar esta situação. Apenas poderá mudá-la a alteração da atitude dos homens para com as mulheres e da atitude das mulheres para consigo próprias."
domingo, 19 de fevereiro de 2012
"A Sonata De Kreutzer"
"Trata-se do que me aconteceu, a mim, e também a noventa e nove por cento dos homens (...); trata-se de uma coisa terrível: não perdi a inocência por ter cedido à sedução natural de uma certa mulher. Não, não me seduziu mulher nenhuma, apenas caí porque o meio que me rodeava via naquela queda ou um acto legal e benéfico para a saúde, na opinião de alguns, ou o mais natural divertimento de um jovem, não só perdoável mas até inocente. Eu nem sequer me apercebia de que havia ali uma queda, e comecei simplesmente a entregar-me àquela coisa que é em parte prazer, em parte necessidade, como me foi sugerido, numa determinada idade; comecei a entregar-me então a essa depravação, tal como comecei a beber e a fumar. Mesmo assim, naquela primeira queda havia algo de especial e comovedor. Lembro-me de que, logo a seguir, naquele mesmo quarto, senti uma grande tristeza, tão grande que me apetecia chorar, chorar a minha inocência perdida, a minha atitude para com a mulher irreparavelmente estragada. (...) Tornei-me no que se chama um devasso. Ora, ser devasso é um estado físico, semelhante ao do morfinómano, do alcoólico, do fumador. Tal como o morfinómano, o alcoólico e o fumador não são pessoas normais, um homem que conheceu sexualmente várias mulheres para seu prazer deixa de ser normal para se tornar um homem estragado para sempre, o devasso. (...) O devasso pode abster-se, pode lutar; mas jamais terá uma atitude simples, clara, pura... fraterna para com as mulheres. (...) fiquei assim para sempre, e foi isso que me levou à perdição."
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