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quinta-feira, 19 de outubro de 2023
quinta-feira, 29 de dezembro de 2022
“Sísifo"
"Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És Homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.”
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És Homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.”
terça-feira, 29 de setembro de 2009
"Diário"
"A morte é séria, realmente. Mas a vida é mais. Não se pode comparar a gravidade de perder o jogo numa só cartada inconsciente, com a de passar anos e anos a tentar em vão todos os números da roleta, roído pela consciência permanente da derrota."
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
"Diário"
"(...) o tempo e o afastamento degradaram nas memórias enfrentadas a natureza e significação dos factos evocados. Onde o meu interlocutor dizia preto, dizia eu branco; onde eu dizia amarelo, dizia ele vermelho.
Fernando Pessoa, depois de ter ouvido da boca dos protagonistas duas descrições diferentes do mesmo acontecimento, feitas com critérios idênticos, fala da confusão que lhe fez aquela «existência dupla da verdade». Assim nos sucedeu, também. Contávamos, e pasmávamos ambos das mútuas versões que ouvíamos de cada sucesso. Não havia sincronização possível no diálogo. (...) Sem o parecer, quanto mais divergíamos no relato dos episódios, mais longe íamos ficando um do outro. Éramos dois cronistas antagónicos e obstinados de determinadas aventuras, e não dois sentimentais associados a elas. E dois desconhecidos, quando à despedida nos abraçámos."
Fernando Pessoa, depois de ter ouvido da boca dos protagonistas duas descrições diferentes do mesmo acontecimento, feitas com critérios idênticos, fala da confusão que lhe fez aquela «existência dupla da verdade». Assim nos sucedeu, também. Contávamos, e pasmávamos ambos das mútuas versões que ouvíamos de cada sucesso. Não havia sincronização possível no diálogo. (...) Sem o parecer, quanto mais divergíamos no relato dos episódios, mais longe íamos ficando um do outro. Éramos dois cronistas antagónicos e obstinados de determinadas aventuras, e não dois sentimentais associados a elas. E dois desconhecidos, quando à despedida nos abraçámos."
"Diário"
"E acabo por concluir que o melhor ainda é ficar-se a gente pela crua sinceridade do silêncio."
domingo, 20 de setembro de 2009
"Desacerto"
"Ternura em movimento,
Vamos os dois — o sol e a sombra juntos,
O futuro e o passado no presente.
O que te digo é urgente;
O que tu me respondes não tem pressa.
A minha voz acaba na vertente
Onde a tua começa.
Apertamos as mãos enamoradas.
Uma quente, outra fria…
E sorrimos às flores que no caminho
Nos olham com seus olhos perfumados.
Tu, de pura alegria;
Eu, de melancolia…
Um a cuidar, e o outro sem cuidados.
Canta um ribeiro ao lado.
Ambos o ouvimos, mas diversamente.
O que em ti é promessa de frescura
À terra da semente semeada,
Em mim é já certeza de secura
De raiz arrancada.
Almas amantes e desencontradas
Na breve conjunção
Que tiveram na vida,
Levo de ti um halo de pureza,
Deixo-te a inquietação duma lembrança…
E é inútil pedir mais à natureza,
Surda ao meu desespero e à tua confiança."
Vamos os dois — o sol e a sombra juntos,
O futuro e o passado no presente.
O que te digo é urgente;
O que tu me respondes não tem pressa.
A minha voz acaba na vertente
Onde a tua começa.
Apertamos as mãos enamoradas.
Uma quente, outra fria…
E sorrimos às flores que no caminho
Nos olham com seus olhos perfumados.
Tu, de pura alegria;
Eu, de melancolia…
Um a cuidar, e o outro sem cuidados.
Canta um ribeiro ao lado.
Ambos o ouvimos, mas diversamente.
O que em ti é promessa de frescura
À terra da semente semeada,
Em mim é já certeza de secura
De raiz arrancada.
Almas amantes e desencontradas
Na breve conjunção
Que tiveram na vida,
Levo de ti um halo de pureza,
Deixo-te a inquietação duma lembrança…
E é inútil pedir mais à natureza,
Surda ao meu desespero e à tua confiança."
"Adeus"
"É um adeus…
Não vale a pena sofismar a hora!
É tarde nos meus olhos e nos teus…
Agora,
O remédio é partir discretamente,
Sem palavras,
Sem lágrimas,
Sem gestos.
De que servem lamentos e protestos
Contra o destino?
Cego assassino
A que nenhum poder
Limita a crueldade,
Só o pode vencer
A humanidade
Da nossa lucidez desencantada.
Antes da iniquidade
Consumada,
Um poema de lírico pudor,
Um sorriso de amor,
E mais nada."
Não vale a pena sofismar a hora!
É tarde nos meus olhos e nos teus…
Agora,
O remédio é partir discretamente,
Sem palavras,
Sem lágrimas,
Sem gestos.
De que servem lamentos e protestos
Contra o destino?
Cego assassino
A que nenhum poder
Limita a crueldade,
Só o pode vencer
A humanidade
Da nossa lucidez desencantada.
Antes da iniquidade
Consumada,
Um poema de lírico pudor,
Um sorriso de amor,
E mais nada."
"Diário"
"Subo ao alto da serra, olho em redor, e até me parece impossível que nas pupilas tão pequenas do homem possam caber certas grandezas. Mas cabem. E mais: é nelas que tais grandezas adquirem sentido."
"Diário"
"O desânimo consciente pode muito, mas, felizmente, a coragem inconsciente pode mais. Deito-me desiludido, e o subconsciente continua a fazer versos na escuridão."
"Diário"
"O pensamento entra na retorta e deixa de fora o instinto, fiel ao chouto da terra. Por mais cera científica que meta nos ouvidos, continuo a ouvir os protestos conservadores da espécie, que teme no meu corpo uma aventura em que vislumbra, aterrada, a sombra do seu aniquilamento."
"Diário"
"Tudo o que sou claramente não é daqui. Mas tudo o que sou obscuramente pertence a este chão. A minha vida é uma corda de viola esticada entre dois mundos. No outro, oiço-lhe a música; neste, sinto-lhe as vibrações."
"Diário"
"Só há uma solução quando se vive num ambiente medíocre, entre medíocres: recusar a mediocridade. Recusá-la sistematicamente, permanentemente, teimosamente, como o estômago recusa certos alimentos que lhe repugnam. Chegar mesmo à heroicidade de ter diante dos olhos interlocutores medíocres, e falar-lhes com a aplicação de quem estivesse a conversar com sábios da Grécia. (...) O problema é de pura higiene mental."
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
"Diário"
"Abandono-me à volúpia dum encontro meramente físico com a realidade. Fragas, matas, rios e ribeiros, tudo entra em mim como a luz pelas vidraças. Entra e cabe. Não há imagens no mundo que saciem a pura transparência. Nada entendo, e nada quero entender. E sinto paz. A paz de ser uma simples coisa permeável entre coisas impermeáveis."
sábado, 12 de setembro de 2009
"Diário"
"Era jovem, e os jovens merecem que os adultos não lhes antecipem as amarguras. A vida se encarregará de lhes mostrar que toda a experiência é uma cicatriz onde a ferida continua a doer."
"Diário"
"Tenho passado a vida a dar esperança aos outros. São horas de começar a repartir alguma comigo..."
"Diário"
"No auge da maior paixão, a lucidez corta-me as asas. E caio envergonhado dos píncaros da certeza no raso chão da dúvida."
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