domingo, 20 de junho de 2021

“O Amor é o Murmúrio da Terra"

“O amor é o murmúrio da terra
 
quando as estrelas se apagam
e os ventos da aurora vagam
no nascimento do dia...
 
O ridente abandono,
a rútila alegria
dos lábios, da fonte
e da onda que arremete
do mar...

O amor é a memória
que o tempo não mata,
a canção bem-amada
feliz e absurda...

E a música inaudível...

O silêncio que treme
e parece ocupar
o coração que freme
quando a melodia
do canto de um pássaro
parece ficar...

O amor é Deus em plenitude
a infinita medida
das dádivas que vêm
com o sol e com a chuva
seja na montanha
seja na planura
a chuva que corre
e o tesouro armazenado
no fim do arco-íris.”

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Episódios de Intro(a)versão: Um Estranho Mete Conversa Comigo

Estou num café. Acabo de beber o meu chá. Vou até ao balcão pagar a conta. O gajo do café recebe o dinheiro, olha para o livro que tenho comigo (“Vagabundos do Dharma” de Jack Kerouac) e pergunta se pode ver. Digo que sim, um pouco atrapalhada, e acrescento que não é grande coisa:

(É preciso notar que ao longo de todo este árduo diálogo, árduo para mim, eu estava super constrangida).

-Chamou-me a atenção porque tem “dharma” no título. Mas dharma tem a ver com uma filosofia de vida e o budismo, é um contrassenso "vagabundos do dharma”...

Reviro os olhos mentalmente (por que raio sou assim?!), mas o rapaz até parece ser porreiro, por isso explico qualquer coisa acerca da altura em que foi escrito, etc., etc. E ele:

-Pois, agora comecei a ler umas coisas, mas não são romances...

-Bom, isto não é bem um romance (pelo menos no sentido que me pareceu que ele estava a dar à palavra). Não conheces o autor?

-Não. Ando a ler cenas de Filosofia. Descobri o Comte.

-Sartre e Foucault são muito bons...

Ele acena com a cabeça e atira:

-Acabei agora de ler “O Anticristo”.

(Não consigo evitar de pensar que li isso aos 15 anos... Reviro outra vez os olhos mentalmente... Por que raio sou assim?!)

-O Nietzsche é o maior! - respondo-lhe a sorrir.

Lentamente, pego no livro que estava em cima do balcão e começo a mover-me no sentido de me pirar dali para fora da forma mais natural possível. É MUITO DOLOROSO PARA MIM FALAR COM ESTRANHOS (eu vou àquele café quase todos os dias, mas ainda assim para mim, o gajo é um estranho!).

Ele, em plena sincronia, move-se também e sai do balcão cá para fora. Diz mais qualquer coisa, eu começo a ficar desesperada, mas sorrio com toda a naturalidade possível. Até que ele começa a sentir-se mal e diz:

-Oh desculpa, estou a aborrecer-te!

(Eu penso para mim: até pareces ser fixe e eu gosto de falar sobre estas coisas...) Mas o que me sai da boca é o seguinte (não sei por que razão):

-Não faz mal - digo-o a sorrir.

(...devo ter ficado a parecer um pouco psicopata...)

(E não era mesmo isto que eu queria dizer...)

Por esta altura, o meu sorriso já deve começar a parecer-se com o do Joker. Tendo noção disso, fico ainda mais nervosa. Entro em pânico e atiro um:

-Bom fim de semana! (Uma vez que era sábado).

Continuo a sorrir estupidamente enquanto saio porta fora. Parece que os músculos da face congelaram.

Vou o mais rápido que posso para não dar nenhuma hipótese de o diálogo prosseguir (na minha cabeça parecia mesmo que estava em fuga). Entro no carro e ponho-me a andar. Passei a viagem toda a rir à gargalhada e só me vinha à cabeça a palavra: awkward awkward awkward awkward ...

É assim a vida da malta introvertida! Sempre dá para rir (sozinha).



24-08-2020

terça-feira, 13 de outubro de 2020

"As Aventuras de Huckleberry Finn"

 



"The Road"

“Nobody wants to be here and nobody wants to leave.”
“Ultimately, all moments are really one, therefore now is an eternity.”

“Love at First Sight”

They’re both convinced
that a sudden passion joined them.
Such certainty is beautiful,
but uncertainty is more beautiful still.

Since they’d never met before, they’re sure
that there’d been nothing between them.
But what’s the word from the streets, staircases, hallways—
perhaps they’ve passed by each other a million times?

I want to ask them
if they don’t remember—
a moment face to face
in some revolving door?
perhaps a “sorry” muttered in a crowd?
a curt “wrong number” caught in the receiver?—
but I know the answer.
No, they don’t remember.

They’d be amazed to hear
that Chance has been toying with them
now for years.

Not quite ready yet
to become their Destiny,
it pushed them close, drove them apart,
it barred their path,
stifling a laugh,
and then leaped aside.

There were signs and signals,
even if they couldn’t read them yet.
Perhaps three years ago
or just last Tuesday
a certain leaf fluttered
from one shoulder to another?
Something was dropped and then picked up.
Who knows, maybe the ball that vanished
into childhood’s thicket?

There were doorknobs and doorbells
where one touch had covered another
beforehand.
Suitcases checked and standing side by side.
One night, perhaps, the same dream,
grown hazy by morning.

Every beginning
is only a sequel, after all,
and the book of events
is always open halfway through.


(translated from Polish by Clare Cavanagh and Stanislaw Baranczak)
“The goal of libertarianism is not to permit people to be free, but to make them realize that they don't need anyone's permission to be free.”